terça-feira, 17 de novembro de 2009

Maria

à minha avó
Maria Ferreira
Estrada de ferro trilhada pelo pão de cada dia
Mira-la-ía no fitar do meu riso
E a sentinela inquilina de minha horas
Ganharia asas de aves-marias
Abrandar-me-ia com a cantilena de tuas ladainhas
Rogaria romarias, ó Maria
Tende piedade de mim
Rogai por mim, nossa senhora da bondade
A boa idade dança na folha da malva-do-reino
Dai-me um chá de capim santo
Me ensine a caminhar no teu rosário
A tecer teu terço, santa lenda
Carmelita, lajedo sem fenda
Não vigiou teu penar
Nem choveu com teu hino(voar)
Mas tua adoção germinou Marcos e Helena
E um orfanato de rebentos embalados pela mesma mão
Aquecidos pelo mesmo algodão
Agora homens que perdem noites
Tragando tuas palavras de renda
A tecer a manhã de birros
Em tua almofada de alfazema
Olê, mulher rendeira
Que me ensinou a andar
Me ensina a fazer renda
Que aprendo a navegar.

Edilberto Vilanova

Solar das doze janelas

Entre a aurora e o crepúsculo
A catedral e a capela:
Um solar
Doze janelas
Doze símbolos de castidade
Doze donzelas
A luz que se escurece
Entre as pernas
Se derrama pelos telhados barrocos
Herdados de Portugal
Ao ranger das portas
Os lençóis guardam o segredo mais roto
As camisolas bailam nas alcovas
E guardam o negrume de doze sexos
A casca casta do amor
Intacto, impenetrável, inviolável.
Assim se faz a lenda
Onde a pedra da memória se abre em fenda
Em carne viva história:
Doze janelas, doze símbolos do tempo
Os fantasmas passeiam pela praça da vitória
Os cães velam o sono dos homens
O vento acoita as árvores
E lá na casa esperança
Os lobos espreitam pelas frestas
O repouso das doze virgens
Doze cinderelas

Edilberto Vilanova

domingo, 23 de agosto de 2009

Rosa dos ventos

Da noite o imenso véu cobriu o mundo
Findou-se o dia; Para uns temerário
Para outros da agonia o sudário
E tanto caos de amores oriundo

Hoje assim tão raso, ontem tão profundo
Risos alegres, dores do calvario
Caminho bom, péssimo intinerário
Do sagrado ao profano num segundo

A noite pouco a pouco se acentua...
Cobrindo o campo a palidez da lua
Nas ramagens um fremito, um açoite

E a humanidade toda amanhã
Seguirá de novo a rotina vã
Cobriu o mundo o imenso véu da noite.

Rogério Freitas

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Cantiga da menina sem endereço

Quem pintou o amor dessa menina
Com a cor da água?
Quem moldou com o barro da loucura
Sua forma?
Que lhe viu chorar borrando a maquiagem
No espelho?
Quem ouviu quedar a voz
Do seu segredo?

Seu destino, seu degredo
É migrar sem bando
Passarinho extraviado
Preso para sempre ao duro fado
De ser livre

Quem tocou à dança da serpente
No seu ventre?
E quem guardou sob os seus pêlos
Seu desejo?
Quem subverteu seus fusos e apetites?
E escoltou sua rota
Na fuga de casa?

E quem traçou em branco
O seu sobrenome?

Vivaldo Simão

Haicai aos teus olhos

Teu olhar retrata
A água, o crepúsculo, a ave.
O verde da mata

Rogério Freitas

A canção do espirito

A canção do espirito
Adormece o corpo como febre
Faz valsa o batimento cardiaco
Entorpece a vida
E derrama gotas de delirio pela terra

Ah!Como soam bem esses novos acordes
Acorde!
Repare nas cores transversais que desabam do seu
E se envenene com mel
Porque ainda há abelhas fecundando flores
E a pedra sempre pó
Traz de pouco a pouco a flor do sono
A eternidade é deserta e o corpo desbota

E como cai bem no desalinhar do corpo
Essas novas roupas
Ah!Como são sinceros nossos garotos
Como são modernas nossas moças
Amanhã ou depois virão outros
E tudo será memória
Em outros corpos os mesmo fantasmas
E a canção do espirito tocará
E vai haver dor e lagrima, mas
No fim, em casas subterraneas
Ficaram tons neutros e residuos de vozes
E será só canção para todas as almas atrozes

Edilberto Vilanova

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Ultimas palavras

Sobre o tumulo do velho saxofonista

Um epitáfio:
Aqui Jazz!



Vivaldo Simão

Metafísica

Quando os sapos se encolhem
Os homens coaxam
Montam em seus cavalos metálicos
Remontam suas máquinas
Despertam cheos de fomes, de sedes, vontades
Cavalgam pelo campo, pela cidade
Se embaraçam
Se atropelam
Se despedaçam
Se apaixonam
E se embriagam
Comem, se fartam de cansaço
Rezam, dormem, sonham
Mas os sonhos moram em casas encantadas
Trancadas a sete chaves

É preciso quebrar as portas dos sonhos

Os homens escrevem palavras na àgua
E na àgua só sabem ler os peixes, os sapos

Quando os homens se encolhem
Os sapos coaxam

Edilberto Vilanova

O avesso do livro

O avesso do verso
É o tiro
No avesso do livro
O homem consumido
Consumindo
O homem
Pelo sangue, pela noite, pela fome
E a mão calejada
E a boca calada
De quem só sabe dizer amém

Vivaldo Simão

Haicai do lavrador

A Eduardo Persa
Mais uma colheita,
O riso banguela, a reza...
A vida está feita
Rogério Freitas

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Banditismo

Há alguém a bater na porta
Será a vida ou será a morte?
Alguém a bater na porta
A vida ou a morte?
Na porta
A vida ou a morte
Porta
Vida
Morte
Na porta
A vida ou a morte
A vida ou a morte?
Morte

Edilberto Vilanova

Haicai sertanejo

A chuva não cai...
O medo, os filhos, a esposa...
“É o jeito!” E se vai.

Rogério Freitas

O galo

O sertanejo bateu as asas
E foi para São Paulo
Eis que levou consigo um galo
E um cabrito enfeitado
Antes do entardecer
O sertanejo brigava com o diabo
Foi quando Deus apareceu
Num trem hidráulico
E disse: paz para um homem cansado!
Eis que quando o trem passou
O galo cantou
E os homens acordaram para o trabalho
E antes do anoitecer
O galo voltou a cantar
E bateu as asas
E o sertanejo voltou pra casa.

Edilberto Vilanova

Ofício

Por meio deste peço
O verso que não veio
Ao ver a menina sumindo
Esquina adentro, com olhos de adeus
Peço o verso pelo encanto
De um par de olhos com palpebras de chumbo
Ao ver o sol
Com seus dedinhos de menino travesso
Se agarrar à beira da rua
Pra vê-la estendida distraída e nua
Por tudo que for verde
E belo
E triste
Como essa noite virando manhã

Vivaldo Simão

terça-feira, 12 de maio de 2009

Mágica

Meu bem, que a VIDA não vale a pena
E os retratos não guardam alma pequena
O que vale a beleza se não é gentil?
O que vale o sorriso se não é fato consumado?

Não há morte mágica nem sorte que valha
A pena que deixe o espelho assim: torto
O avesso da beleza é um riso frouxo
E a largura do riso tem dentes consumidos

O que vale amar se a beleza tarde?
E a manhã te verá feia
E amanhã baterei à porta de uma nova beleza
E certamente ela baterá a porta e morrerá também

Edilberto Vilanova e Rogério Freitas

Mudança de estação

Nada disse de absurdo
E você fez susto desse amor
Soltou as amarras da âncora que retinha a nau
E a nau sumiu
Como nuvem que chove e se vai
Como fruta caída
Como um caso comum
Só um caso comum!
Mais um romance sazonal
Mas já é outra estação
E os ventos já não varrem folhas de outono...


Vivaldo Simão & Edilberto Vilanova

A ilha

A poesia inudou minha cama
Minha alma, meus corpo
Meus discos rígidos
Meus livros, méus cenários
Agora, com a luz apagada
Entre as àguas que me separam do embaraço
Num mundo de trevas vejo
Um mar de palavras
Um beija-flor que bebe mel
Nos olhos da minha doce namorada
Sonho a face da poesia
Na face da bem amada
Sem susto, sem medo das àguas
Não mande navios ou aeronaves
Eu prefiro ficar assim: ilhado

Edilberto Vilanova

Sonetilho

Como flor desabrochando
No despontar da manhã,
Como pássaro cantando
Nos galhos do flamboyan;

Como rio sobre a serra
Beijando todo o luar,
Como orvalho vindo à terra
Pra semente germinar;

Como lagoa silente
De bom perfume envolvente,
Exalando maravilha;

É a luminosa graça
Dominante que perpassa
No rosto de minha filha.

Rogério Freitas

segunda-feira, 30 de março de 2009

Poema Mudo II

Cadê minha voz?
Saltou-me do peito, exaltada
E largou-se num canto
Na noite passada.

Vivaldo Simão

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Haicai dos haicais

Apenas três versos
Arquitetei num papel;
Falei do universo.

Rogério Freitas

Insone

A "N"

Madrugado
Eu afago a ferida
Metade é cicatriz
Metade, carne viva
Legado do amor sem medida
Que você negou

Vivaldo Simão

O velho

No ranger e calar dos sapatos velhos
Os novos passarão.
Da escassez do sexo
Resta o gesto que adormeceu as mãos
O batom preto que enrijeceu os lábios.
Perto do peito, esfacelados,
O jeito e o segredo
De converter todo mal em desejo
A aurora sem pássaro, anjos ou fantasmas,
As súplicas do acaso
E o repicar dos sinos da divisão.

Edilberto Vilanova

Jardim de cactus

Devolva-me os sóis
Que queimaram meus pés,
Guarde os cipós
Que arregaçaram minhas mangas
Retalhe as sedas rasgadas pelo cansaço
Desate os nós em nós laçados a sós
E dos ossos quebrados, refaça
Teu jardim de cactos,
Pois está no espinho ensaguentado
O segredo da carne.

Edilberto Vilanova

Prece Pagã

Quisera não ser eu
Dado ao vicio pagão
De ser ateu
Derramaria do meu peito
Uma prece
Por Alice
E nela rogaria ao céu
Que lhe guardasse
De tudo aquilo que não libertasse
Do manto turvo que a vida veste
Quando um amor “desacontece”
E tece-se assim a dura casca
Do casulo, onde as “palarvas”
Teimam em não vingar

Quisera eu que seu amor vingasse
Em alma, em carne, em toque, em ato
Rompesse a pele dos bits abstratos
E apenas fosse feito fato

Vivaldo Simão

Haicai de vida e morte

Um choro ao Norte
Nasceu uma vida;
E, ao sul, Um choro de morte.

Rogério Freitas

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Das vertigens e fumaças

Meus amores duram pouco
Têm o tempo de um cigarro
(e eu largando baganas pelo caminho)
E também trazem consigo
Vertigens passageiras
Mas no fim viram fumaça peito afora

Certa vez me dei ao vicio
E me achei fumando filtros noite adentro
Até morrer de cansaço
Até perder um pedaço
Do que eu tinha de sagrado
Agora meus amores são tão curtos
Como o tempo de um cigarro

Vivaldo Simão

Ciclo natural

Entre parênteses:
As regras
O gesto de cristal
As conjunções e o feto

Dentro da reta:
A demora de pedra
A cerâmica que se funde e se preserva
A vírgula e o verbo

Dentro das conjugações:
O espectro
O mármore à espera
O parágrafo e o ponto final.

Edilberto Vilanova

Inscrição para a margem de um rio

Cantando alegre, o rio segue livremente.
Quer nesses dias claros, quer nas noites turvas
Não pára; corre sem temer as grandes curvas
Ocultadas por um caminho inclemente.

E vai andando a contemplar paisagens belas;
Da própria queda faz as lindas cachoeiras......
Passa entre troncos, banha searas inteiras
E na noite só se lembram dele as estrelas.

A vida também segue um curso natural:
Vai deslizando, luta contra todo o mal
E vence algumas coisas que muito reprova.

Mais, porém, é a vida – barra a empecilho!
O rio, em enxurradas, ganha novo brilho
E ela só perde luz, nunca se renova.

Rogério Freitas

Guerra fria

Não diga palavra
Melhor ouvir silêncios
Pontuando o ruído da artilharia
Foram tiros na rua?
Ou é só meu peito que se agita?
Sabe lá...Às vezes o amor se parece mesmo com a guerra
E já perderam-se as contas
De tantos feridos.
E nós, que já cruzamos o limite do perigo?
Frente a frente no front
Perdemos as armas
E a trilha da volta.
Estendo uma mão de aliado
No espaço vazio onde outrora eu vi tua mão
E desaprendo a estratégia que eu mesmo armei
Então lhe deixo ir, por mero cansaço.

Vivaldo Simão

O trem não vai parar

O trem não vai parar
Dançando com cheiro de fumaça,
Ele leva carne de charque
Pinta o sete, e lavra, fecundando flores
Caixas de abelhas cheias de saudades
Que se não catasse palavras não escaparia pela válvula.
Novamente a carne seca e toda safra de arroz e feijão já convertida em festa,
Nesse baião arisco corta a chapada do corisco
Beija as sete portas encantadas
E encontra as sete cidades perdidas.

Edilberto Vilanova

Haicai do ébrio

Amanheço triste,
Vou ao copo novamente
Me alegra a aguardente.

Rogério Freitas

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Miragens de Luz e Mar

Luz
De apagar escuro
De acenar um porto
(Canto de sereia inverso)
Mas se mira os olhos do navegador
Desfaz a guia e cega
Claridade magnética suga
Planetas-insetos
À órbita de uma estrela fria

Mar
De seguir viagem, navegar
Vislumbrando continentes impalpáveis
Universo submerso de onde insurge um canto
De sereia aos navegantes, já distantes
Dos faróis do porto
Que perdem se do Norte, em rumo torto
E presos pelo fado do naufrágio, bebem doce morte:
Deixam-se levar azul adentro pela água fria

Por sobre o mar, a luz reflete o azul
Tornando o mar também azul, mera miragem
Por sobre o mar o mesmo céu de cujo ventre
Vi derramar anjos cadentes
Trazendo em si divinas dádivas
Dadas às dádivas da carne
E desse amalgama vi teu corpo despertar

Vivaldo Simão

Paráfrase

Os três mal amados, enfim, perceberam que o amor simboliza a morte do homem. Raimundo tangia o vapor de Maria e João espreitava os amantes de Teresa, enquanto o terceiro mal amado, por não saber mais do amor que agonizava dentro do seu peito, passou a maldizer os amantes, os derradeiros românticos que tomavam sorvete de morango na praça das alianças. E o diálogo era sempre o mesmo: num ranger de ossos, Raimundo dizia que o querer é a morada do ócio. Devorado, João cantava que é tempo de se dividir nos outros. Rejeitado, o terceiro mal amado olhava de lado, fazia pouco caso e para não liquidificar a dor, escapava pela válvula, evasivo, embebia o cálice, pois a pele cálida ganhara gélidos segredos. O tempo é um açoite, findou-se o tempo de amar, agora tudo é carne, prepare seus cutelos e leve suas cabeças ao matadouro, eis a fala da terceira pessoa do singular. Para ele não havia Teresa, nem Maria, apenas flores murchas agonizando no asfalto, e a falta que se proliferava, em reversos virava fera. No peito já velado, o palpitar mórbido, que de todo modo configurava-se em reminiscências sórdidas. Hostil, ele viu que o mundo todo é vil, e a luz da praça das alianças, já mortiça, tornou-se a própria escuridão. As identidades foram comidas, pois no escuro todas as identidades possuem a mesma cara. O vapor de Maria evaporou e virou nuvem, Raimundo fez-se empresário, João descobriu que Teresa era lésbica, e como ela, travestiu-se de outro sexo. Por não encontrar identidade, subversivo, o terceiro mal amado dispersou-se, ocultou o nome na poeira da solidão e foi devorado na pista de dança.

Edilberto Vilanova

À lua

Muita alvacenta, plácida, bonita,
Lúbrica indiferente, cristalina,
A lua entre duas nuvens negras
As faz parecer com uma cortina.

Rogério Freitas

Porto

Quando caírem os dentes
Restará amor no peito
E quando minguarem os sexos
Ainda haverá desejo
De ser extensão do outro
Ainda haverá o beijo

Ói que o rio ligeiro desabou num mar
Tão maior que os continentes que abrigam os rios
O mar é pleno!!!
Já não corre, já não busca
O mar é porto
Posto sobre a terra
Beija o horizonte e a praia
E bebe o azul do céu

Quando vierem as rugas
Quando emergirem os rasgos
Indícios do tempo passado presentes
Não te pintes
Não te espantes
Se eu quiser teu corpo
Como queria antes
E brincar na tua pele sem retoques

E quando o velho peito
Sucumbir de cansaço
Antes de dormir
Façamos um pacto
Sempre seremos nó
Brincaremos numa brisa
Quando formos pó.

Vivaldo Simão

Ensaio

Não verei mais os cubos de rodas vivas
Desenrolando as tranças de estações e gestos
Verei ainda o aguaceiro das rotas de ilhas,
E fragmentos para fecundar o passo

Não mais verei rosas místicas, nem cactos.
Dessa esfera ficará o esforço para ser círculo
Verei ainda o desbotamento das árvores
E um ensaio de rastro para alimentar o passo

Deixarei nódoas e mãos esmagadas pelo salto
Uma tarja negra, o silêncio e dedos na parede.
A pele cálida ganhará gélidos segredos.
E de tanto saltar verei apenas o esboço do passo.


Edilberto Vilanova

A formiga e a cigarra

E cantou todo o verão a cigarra,
Por isso viu o inverno de fadiga
Chegar sem nada ter; com a fome esbarra
E vai pedir uma ajuda à formiga.

Mas, esta, da vadiagem inimiga,
Associou sua vizinha à farra;
Negou a ajuda e fez pouco da amiga
Com uma sutil pitada de algazarra;

À cigarra mostrou toda a riqueza
Que ela só construíra com suor
E se exaltava a dizer: - Que beleza!

Mas disse a cigarra longe de otário* -
O fruto da lida só tem valor
Quando o seu dono é um pouco solidário! ·

*Concordância correta é otária.

Rogério Freitas

Baião de três

A palavra farta à mesa posta:
Prato que se serve quente
A dança a língua e o dente
Ao redor da palavra.

O prato feito, self service,
Carne de charque, arroz e feijão,
À mesa farta a língua dança
Bossa nova, rock e baião

Edilberto Vilanova & Vivaldo Simão

Natal branco

As crianças espreitaram a fúria do mundo
E mudas caíram no viaduto
Vingou o fruto pedregulho da sina,
A assassina de luas minguantes,
A nudez da voz, estampidos dentro da noite,
Marabalismo no farol, o olho torpe do consumismo,
O riso ensangüentado e o escárnio.
O segredo dos lábios, o beijo branco
No confronto de cores
De um dia pálido
E entrecortadas, palavras ávidas.
A desesperada réstia de esperança
E apenas um embrulho
Para celebrar a magnitude da vida.

Edilbero Vilanova

Haicai do pescador

Depois da procela,
Vinho bom e peixe frito
E o doce olhar dela.

Rogério Freitas

sábado, 3 de janeiro de 2009

Bucólica a Meeiro

SOLIDÃO

SOL

LIDA

IDA

DÃO

0


Rogério Freitas

domingo, 14 de dezembro de 2008

Estiagem

O beijo se desfez.
De resto sobrou apenas
Um pano bordado
E a cor da chita
Se espalhando por toda a casa,
Um mosaico encantado
E um canto nostálgico
Pulando do pé de juazeiro
Angico ligeiro, que dirá desse
Amor que acabou?
Que vento passou por aqui
Que derrubou o velho umbuzeiro?
E esse azedume que levou
Todo o doce de todo mel
Dessa última safra
Quem cohrou no fim do inverno?
Quem disse adeus?
E a roupa dele, quem lavará?
Quem fará as costuras
Que estão faltando na velha roupa?
Ela, que já se acostumara com a lágrima
O viu chorar
A zabelê de olhos anil se cansou da fuga
Cessou o cantar
E agora, entorta as costuras
A outra, com labios corrosivos,
Corroeu o que ainda restava desse amor
O beijo se desfez, as bocas estão bordadas.

Edilberto Vilanova

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Lady Godiva

a lua, Lady Godiva, cavalga no céu
Sob os olhos de ninguém
A lua em pêlo, a pele pálida
Transpira desejo no espaço
Exala perfume do enlace de sexos
A lua a lamber o céu
Espaira-se a espreita de olhos famintos
Aos quais possa cegar

Vivaldo Simão

Haicai dos Frêmitos Noturnos

Correm livremente
O vento e as folhas mortas,
A noite é plangente.

Rogério Freitas

Funcionário público

Meu Negócio

É o ócio!!!

Edilberto Vilanova

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Madrugada em pêlo

Sob o olhar penetrante da lua
A cidade sinuosa
Se insi'nua

Vivaldo Simão

Efeito estufa

Vorazes e alheias ao corpo
Balas de metal cortam a avenida
Criam um mar sobre nossas cabeças
E um túmulo sobre nossos pés

No asfanto, pequenas flores murchas
Termicamente invertidas, agonizam
Sobrevivem aos tragos de minerais e gáses enfurecidos

É o desatino exato da prole do inseto
Que formula seu próprio inceticida

Acedam incensos para a morte
Que na metrópole ninguém chora
Ou será que ninguém ama?

Estamos no fim dos tempos
É a evasão total do amor
Uma vez provincia sempre provincia
A louca da esquina queria saber
Porque o jornaleiro se matou
Será que nos jornais não há mais palavras de amor?

Acedam incensos para morte que na metrópole ninguém chora

Tumulto!
Abalou-se a avenida central
O que foi?
Foi suicídio
Ele se envenenou com fumaça
E morreu asfixiado

Automóveis movem a morte
Há arvores mortas na calçada
Há canções mortas seguindo o cortejo
Há jornais sobre o corpo do jornaleiro

Edilberto Vilanova

domingo, 23 de novembro de 2008

AmaranT'e

...e no fim da rua:



O rio !


Vivaldo Simão

Nostalgia de um velho

Recordo meus amigos de criançola...
Ah! Foram tantos! E na minha rua,
Naquelas tardes de brisa tão nua,
Os gudes no “pezin” de castanhola.

Dividíamos nós felicidade,
Tristeza, decepções, sonhos de infância,
Segredos, as primeiras esperanças,
E os primeiros sinais da puberdade.

Mas depois, esta senda foi ficando
No olvido da mudança, para trás;
Muito célere o tempo foi passando...

Só, trilho hoje e estrada com meus ais;
E às vezes digo a mim mesmo chorando:
-“Não seremos aquilo nunca mais!”

Rogério Freitas

Carnaval

Já desperto o sonho de mortos vivos,
Acabrunhados pelo sono em apoteoses,
Fantoches e confetes dão vau à carne.
A felicidade bate à porta
E sem demora, avisa que veio pra ficar.

Edilberto Vilanova

Parto

Este sou eu: alguém que busca.
Ante a hermetica face do que eu não conhecia
Eis que estou aqui, buscando em mim
Um resquíscio qualquer de poesia

E a poesia, o que é?
Um jorro do magma dos subterrâneos do meu peito?
Uma polaróide do universo exterior filtrado e impresso?

E a poesia, como fazê-la?
Encaro-a, esfinge, sem sabê-la
E ela rí com o canto da boca e diz:
"Decifra-me ou te devoro!":
"A poesia é a pergunta e a própria resposta"
Eis que parí um poema


Vivaldo Simão

Coisa antiga

Nem bem nascí
E já parto

Nem bem nasceu
E já parto

Nem bem nasceu
E já Parto

Minha mãe não tinha noção
De planejamento familiar.

Rogério Freitas

Identidade

Em mim não há idade, nem festa
Em mim não há história, nem fósseis
Em mim não há rótulo, nem sexo
O que está em mim se q u e b r a.

Edilberto Vilanova

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Poema oblíquo

Mim e tí
Largados à mingua
Pagando o pecado
Pelo crime contra a lingua


Vivaldo Simão

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Vidente

Vidente, eu morro todos os dias,
A tanger o amargo e irresoluto luto das horas.
Fugidio vejo o abismo e derramo rosas,
Elas escorrem sem perfume
Pelo espelho oco do homem
E onde estão os dias que me fogem?
Onde se escondem as palavras que me sobram?
Procura inútil entre a divisão de mundos.
Onde começa e termina tudo.
Toda morte é por amor, por um punhado
Do pão que nasce e morre todos dias
E a ferida que sangra, pulsa, vibra, devora-se.
Vê-la esvaindo-se e não poder gritar
É rejeitar os trejeitos da dor.

Edilberto Vilanova

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Canção Ébria

Último gole
As coisas todas diáfonas:
Tudo um sonho!

Agora nem pieguices,
Nem dores,
Nem remorsos,
Nem preocupações

Livre de todos os males:
O corpo leve
A mente vaga

Passos descompassados
Entre faróis e buzinas
Pisadas em poças de lama
Tropeços e mais tropeços

O sono pesado,
O desequilibrio,
A queda,
A cama na calçada

Rogério Freitas

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

O tempo e a matéria

Um poeta sem matéria
Desfolha a alma,
Flerta o lado torto do verso e espera:
Palavras e resíduos de festas.

Desmaterializado, o verso se industrializa.
Dissimulado, simula o espetáculo,
Encrespa-se, encrava-se e se infesta.
Infestado, imerge e se entristece

E assim, com olhos caleidoscópicos,
O poema, oráculo, copia os séculos
O espetáculo se entardece
E o poeta, binóculos desorbitado,
Decai com a cadência das décadas
E a matéria, já decomposta vira feto,

Enfim, o tempo e o fim.
Descompassado, o poema se emudece.

Edilberto Vilanova

Dois virgens

Um noturno de Chopin,
O vinho tinto,
O aroma da amanhã,
O inceso,
O silencio
Assentando sobre o quarto
Envolto pela ânsia e a meia-luz

Dois pares de olhos flamejantes,
Hesitantes olhos!
E a brancura dos lençois:
Oceano insinuante de aguas serenas
Nos convida a navegar
Sendo partida e destino um do outro

Agora, a nossa volta ruídos serenos
E a vida que se derrama silenciosa e lenta
Uma brisa se insinua entre as flores
E eu prendo o instante entre os dedos,
Enquanto o tenho junto das mãos
As mãos que são dadas às
E te convidam a provar comigo
A maravilha de viver

Lá fora a cidade adormecida e quente
Parece incapaz
De supor nós dois.

Vivaldo Simão

domingo, 9 de novembro de 2008

Luz

A vela
É vê-la!

Rogério Freitas

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Experimental

Um,
dois,
três

Textando!

Vivaldo Simão

Haikai sem vida

A vergar espinhos
Desabrocho-me em flor,
_Morro sem odor.

Edilberto Vilanova

sábado, 25 de outubro de 2008

Silencio

Há dias espero
Por uma palavra,
Uma mera palavra
Que possa ser o fio
Da meada
Uma palavra seminal
...E minha cabeça...
Minha cabeça prenhe de nada!



Vivaldo Simão

Falando a Dora

Para sempre não há, Dora, ventura
Que dure. Ser feliz e um breve instante.
O mundo algoz tão ríspido, inconstante,
Converte todo bem em amargura.

Lamenta sim a grande desventura
Que vira! Não te iluda a radiante
Fortuna que da a qualquer semblante
O sorriso do gozo e da fartura.

Eu também, neste rosto, carreguei
Esse riso – também me debrucei
No fausto da fortuna que me dizes...

Mas, toda a luz que eu tinha se apagou
E veio o eterno mal; só me ficou
A saudade dos dias mais felizes.

Rogério Freitas

Submarino

Na hora do mergulho, submerso o submarino subverteu-se
E agora, eis me a desfazer o sonho em taça,
Eis me a seguir relâmpagos na desventura dos cálices,
A entornar vácuos e acordar fantasmas
Eis me aqui dragão nebuloso, risonho e asqueroso
Quando o coração já é fumaça
E o peito se derrama outra
o silêncio grita outra vez
Pois já rodopiaram os instantes e se quebraram os limites.
Quando tudo se cala,
Explodem raros castiçais de nuvens desvirginadas
Em espirais convulsas de hálitos mofados.
Mas a boca ainda se abre e de sobressalto, em retalhos,
Resta à fala e diante dos olhos há tantas coisas!
Tantas palavras que antes eram náufragos
E agora são naus, que embora desatinadas, carregam um grande fardo
E ainda conseguem fugir do sopro da tempestade.

Edilberto Vilanova

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Outras partes

Não chores como eu
Invente uma arte
Não fique falho como eu
Pois existe outro
Que se encontra em qualquer parte
E quem está aqui
Não sou eu nem o outro
É apenas a parte louca
Que contesta a novela volúvel
Que insiste no mesmo capítulo
Quando brota um novo jornal
Porém, com o mesmo noticiário.
Variável dor
Que não sabe se dói ou se desfaz o amor.
Amor?
Será o amor condenado, calculado, sacrificado,
Servido à mesa num prato raso?
Mas, não chores como eu
Invente uma arte
Pois quem está aqui
Não sou eu nem a parte louca,
Agora é o outro
Que vem de outras partes
E se reparte em arte.

Edilberto Vilanova

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Poética

Estranhos labores!
O meu faz outros sonharem
E uso as minhas dores.

Rogério Freitas

Poema mudo

"O que é que se diz
Quando todos os poetas já disseram tudo?"
Silenciei e fiz esse poema mudo

Vivaldo Simão

A morte de Cupido

Vingai-vos por amor, adornai
Minhas mãos com fogo
Na regência das palavras, apartai
Parte a parte o todo

Ao amor, esse gracejo, adorai
Partido. Apartei-me do jogo
,Por vê-se ferido, cai,
Vencido, perdi o fôlego.

Com tanto amor esculpido,
Ainda rola o pranto,
Não se ouviu o grito de cupido

E ele, deus desvalido,
Desafinou-se, afagou o canto
Quedou-se e feneceu desconstruído

Edilberto Vilanova

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Grande bem

Veio a morte, mas inda sou contigo;
foste, nos ventos bravos desses mares,
Nada mais, ó meu bem, que o lenho amigo:
A salvação sublime dos pesares.

Bastava teu olhar (eu já o sigo!)
Necessário não era tú falares,
Pois no seu brilho tinha eu paz e abrigo;
Sequer busquei o cristo dos altares.

Quando entrastes no céu, os bons pastores
Indagaram-te o que de bom fizeste
E sobre tua vida e teus valores...

E falastes no imenso azul celeste,
Pra não perder a porta dos louvores
Do grande bem do amor que tu me deste.

Rogério Freitas

Carrocéu

Da aurora ao luar corre em círculos
Cavalos e moinhos endoidecidos
Sobre meninos e lobos: homens adulterados
E corações dissolvidos em óleo diesel
Da aurora ao luar o cavalgar ondulado
E a corrida ressequida dos dias

Inscrições de cimento e vida
Que correm pro céu corre(céu) de carrossel
E de tanto elo, de tanta corrente, de tanto correr
Se despedaçam os risos
E a tez enegrecida da lua
Traz o replicar dos sinos e tudo se divide:
Estampidos e gritos viram detritos de silencio
E de tanto abraço os braços se enlaçam
De tanta palavra a boca se cala
De tanto cavalgar as patas se partem
De tanto dar-se as mãos os dedos se abrem
E de resto sobra esse hesitar
Ah! Esse hesitar de amigos em conflito
Esse hesitar de amores retrô(cidos)
E dos grilos recolhendo magoas no telhado
Ah! Esse hesitar de tantos idos
De lagrimas, labirintos e hinos
Esse hesitar a adulterar o itinerário dos meninos
Epitáfio feito ao rebentar da vida
De mármore e morte
De resto sobra esse hesitar
Trancafiado em viés, trocando anéis
E correndo sempre para o mesmo lugar
Correndo pro céu corre(céu) de carrosséis

Edilberto Villanova

Elos

Sons em tons de rosa
Ressaca de novas ondas
Lá fora a chuva corre calma
Enquanto em me retraio
E me expando até onde jaz qualquer possivel limite
Não há mesuras nessa total falta de espaço
Nem relogios que abriguem esse tempo
No delicado espaço entre o que sou e o que sinto
Nenhum sentido
Todo o sentido do mundo
E todos os sentidos são
Holofontes inversos
Acenam o porto de fora pra dentro
Por um minuto indefinido
Eu, fossil de um homem perdido na história
Adormeci
E acordei nos braços de um tempo
Em que os limites eram lanços rotos
Na ânsia da quebra
Um parto entre homens que eu era
E homens que de mim virão.

Vivaldo Simão

sábado, 20 de setembro de 2008

Atendo a um pedido de Dora

Não gosto, Dora, de trabalhar o livre.
Não sou minuncioso, mas gosto de cuidado;
Um muro mal construído, alem de inútil,
Não nos chama a atenção e passa a ser
Um amontoado de tijolos sem nenhuma estética.
Ao passo que, um muro bem erguido,
Metro por metro, tijolo por tijolo,
Reboco por reboco, com cores que se combinam,
Passa a ter beleza e utilidade.

Tu, que és divina por natureza,
Me pedindo estes versos sem agrado,
Fi-los, ei-los prontos! Cabe a ti
Dar a eles a pureza de tua graça.


Rogerio Freitas

Noticia

A qualquer hora haverá noticia de vida
A qualquer hora haverá noticia de morte
Quando a aurora desabrochar teu sonho pequeno
Convida-me para ver teu filho,
Convida-me para ver teu norte
Mas antes que seja tarde sela o teu cavalo
Sai pela porta de entrada e depois de um tempo,
Convida-me para ver tua casa
E quando a aurora desabrochar teu sonho pequeno
Olha teu filho,
Beija teu fantasma,
Beba teu veneno,
Vê que o nosso amor não deu em nada
E tenha cuidado:
Pois
A qualquer hora haverá noticia de vida
A qualquer hora haverá noticia de morte
O que arde debaixo do sol
Desaparece
O que arde debaixo do sol
Permanece


Edilberto Vilanova

Lirísmo etilico

Eu serpenteava asfalto adentro. No meio do caminho havia uma placa.Havia uma placa no meio do caminho. Pendia onipotente em letras garrafais: Bar Beira Rio.
Qual improvavel encontro! Eu, viajante etílico. Ela, a placa, pensa, ébria, lírica.
Não achei que houvessem placas líricas...E quanto lirísmo, posto que alí, à beira do asfalto, reparando bem, digamos assim, com olhos líricos, eu me dava conta de que toda auto-estrada é um rio, corrente constante, desaguando aqui e acolá, desfilando deslumbrante aos olhos de nós dois, eu e a placa: par de ébrios à margem do rio.

Vivaldo Simão

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Depois da chuva

Depois da chuva que caiu...agora
A mata voltou a ficar silente
Somente gotas de orvalho lá fora
Caem dos galhos compassadamente

A água foi pouca, a cascata não chora,
O azul do céu surge de repente
No entanto por pouco tempo nessa hora
O sol já vai sumindo no poente

E vem a noite como um ser ferido
Mui branda, triste, quieta e calada
Porém vem trazendo algo divertido:

No chão parece haver prata jogada
Devido ao luar belo refletido
N'algumas poças d'água pela estrada

Rogerio Freitas

Asa delta

...Subiu a serra

......Para esconder o fado

............De longe se via seu desalinhar,

....................Comprimiu gotas de esquecimento

......................Rompeu com os astros invisíveis da sua mente

.....................Robusto e novamente cego comprou asas, virou deltas,

...................Disperso, decaiu-se sobre o arco, abriu asas e voou.

................Mais valia o último vôo do que o navegar

............De náuseas e dias compartidos.

..........Então encontrou o fado

......E desceu a serra.


Edilberto vilanova

Samba de amar errado

Ah!Esse caoticoração não sabe o que quer
Renegando o altar que essa mulher
Dispõe ao meu amor
Que o amor de outra mulher
Não quis provar
Fez pouco caso
Olhou de lado
E eu de tão acostumado
Ao fado de amar errado
De a-mar-es amargos dantes navegados
Encarei a tempestade sem saber
Que dessa vez era mais sério
Qual misterio esse: gostar do avesso do amor, a indiferença
E essa outra que me tem tanto zelo
Se despedaça inteira em apelo
Sobre meu peito: puro gelo pra esse amor
Que estimarei quando não mais tê-lo
For um erro consumado enfim

Vivaldo Simão

Mar Tristonho

Ao longo da praia ando muita vez
E em fúria vejo o mar se debatendo,
Parece assim como eu estar sofrendo
A saudade de um bem que se desfez

Saudade triste ou solidão talvez!
As ondas balbuciam, não entendo...
E vêm aos meus pés quase me prendendo
Mas sem alento morrem outra vez

E quando a noite cai, bela, serenas
As estrelas com todo amparo seu
Vêm livra-lo de suas tristes penas

Dessa mágoa se vai o triste véu.
Calmo e risonho o mar se torna apenas
Um grande espelho refletindo o céu.

Rogério Freitas

Girassol

Nascer: ser um nó
Para girar sóis
E desatinar-se só
Para enfim virar pó

Edilberto Vilanova

Migração

Partir pro Sul:
Difícil parto
Repartir-se do cordão umbilical
Ensaio do vôo de passaro
E o coração materno teso de saudade
Parado na estação
Cria do Norte têm sede de sonho
E o acaso esperando na parada final

Vivaldo Simão

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Fetiche

A poesia não bate à porta
Salta sobre a janela
Contamina a casa

Todo poeta é uma virgem
À espera da poesia
Ela chega num cavalo branco
E toma o poeta pra si
Deflora o poeta

A poesia é sádica
Cospe um não na cara do poeta
E se nega
Enquanto se insinua
De mordaça e chicote
Exulta ante a suplica do poeta

A poesia é o pesadelo do poeta
Irmã da musa de olhos arregalados: insônia
Mas quando vem e se dá
É gozo de alma e carne
É delírio onírico do poeta disperso

Vivaldo Simão

Silêncio

??????????????????????
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
A pergunta que antecede o grito
É o silêncio

Edilberto Vilanova

Riacho

Em tuas margens, casas não se viam
Nem o sol era brando como agora,
Seus raios eram mais fortes e, outrora,
Searas e rebanhos existiam

E as tuas águas de cristal desciam
A espalhar vida, colorindo a flora
E hoje em teu bojo a água impura deflora
Os bosques onde as Ninfas se escondiam

Ah!Mas o viajante que ainda pára
E com saudade te olha por prazer
Certamente verá um lindo prado,

Tuas margens sem casa, uma seara,
Um sol mais belo, água pura a descer,
Um vaqueiro e um rebanho do meu gado.


Rogerio Freitas

Haikai Social

Sob o viaduto
Parece haver vaga-lumes
-Mendigos que fumam

Rogério Freitas

Despertador

Ao despertar da dor
A exatidão do tempo rompe o silencio
Em rascunhos e fagulhas.

De novo o alvorecer do sonho retirante a abrir feridas
O corpo se desfibra e arde novamente
O sol, condenado a nascer, recorta as vísceras
E espalha pelos escombros de qualquer mercado
Flores e lástimas cobertas de vítimas.

Não mais vozes do silencio
Agora mapas do acaso
Não mais amores vãos
Agora resquícios de orgasmos
nada mais escuro
Agora louvores
Cores e atores
Abram as cortinas para o teatro corrosívo do dia
Pois repleto de dramas
Recomeça mais um grande ato amargo e mágico de viveres.

Edilberto Villanova

Chuva

Findou se o retirar dos retirantes
No vento a cantilena retumbante
Clarão no céu da patria neste instante
E lá na negra nuvem-nave adiante
Regalo raro para um povo errante

E brota o riso frouxo, a reza grata
O verso a anunciar contentamento
E baila a folha verde ao som do vento
E a dança do inverno adentra a mata

A nuvem conta-gotas pinga água
E paulatinamente a chuva desce
E a poça progressivamente cresce
Um sapo sorrateiro à poça salta
E solta um som aberto peito afora
E o velho diz que a chuva é o céu que chora

Agora,
O fim do estio afinal
Lá fora corre um rio vertical

Vivaldo Simão

Horas Verdes

Agora meu peito é um rádio:
Pulsa ondas de baixa freqüência
Fragmentada(mente) lateja minha consciência
As palavras se interrompem em paredes imaginarias
Errantes, resvalam entre valas, declives
E tudo que há pela sala
São fantasmas invisíveis

Entre zonas de eras eternas
Eu tenho a cor da água
Eu corro em câmera lenta
Desencarnado, suponho um purgatório
Reconheço o infinito no espaço físico
Esvaeço no abstrato desse rio químico
Cuja fonte emana menta
N’algum canto em minha mente

Agora ao som da música em câmera lenta
Cada cena do cinema surreal
Em teatro, em som, em sombra, em cor
Em alma, como um Almodovar
Termina e recomeça sem um elo exato
Tenho asas no sapatos
Tenho um fardo na cabeça
E aos olhos da menina que me miram, luas cheias, posso ser um Deus
Ou posso ser o avesso
Recolhendo culpas num saco de lixo

Vivaldo Simão

CO2

Os automóveis
Movem
A morte!

Edilberto Vilanova

Retorno à cidadezinha

Vendo... ali está linda e perfeita,
Presa nas profundezas da cratera;
Simples e humilde sempre. Ó terra, aceita
Este filho que em vão buscou quimera.

Entrando... talvez guardes-me rancor,
Apesar dessa grande humildade:
Do teu seio troquei este calor
Por ilusões, só conhecí saudade.

Chegando... em minha rua sons de agosto
São cantados por folhas, pela brisa;
Com elas também vai o meu desgosto.

Rio, vejo um olhar: o de Adorisa
Amor de uma infancia de tanto gosto!...
Roçando o chão cicia em prece a brisa.

Rogerio Freitas

Gêneses Lírica

A partir de hoje, neste espaço, a mistura de três poetas, três cabeças, três estilos fundidos numa palavra chamada poesia. Edilberto Vilanova, Rogerio Freitas e Vivaldo Simão: O Baião de Três.
Sejam bem vindos e bom apetite!

Baião de Três